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Furacões femininos

Martha Medeiros

Há poucos dias o furacão Isabel fez estragos na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, conforme os meteorologistas haviam previsto. Não sou uma caçadora de tornados mas sou caçadora de assuntos e fui investigar na internet que história é essa de colocar nome de mulher em furacão. Descobri que no Caribe eles batizam seus furacões com o nome do santo do dia, e que os americanos batizavam os seus com números, mas desde 1953 passaram a batizá-los com nomes de mulheres – aliás, com o nome das próprias namoradas e esposas dos oficiais encarregados da previsão do tempo. Homenagem ou provocação?

Temos que admitir, manas, que a gente sabe como deixar tudo revirado, de cabeça pra baixo. Uma mulher é capaz de devastar a vida de um cara (e a sua própria), de fazer voar os objetos da casa, de armar um ciclone quando não tem seus desejos atendidos. Principalmente naqueles dias de TPM, quando estamos Totalmente Piradas e Malucas. Claro que há mulheres que são calmas, falam baixo, não provocam vendavais nem tiram nada do lugar. Mas sabe-se lá o que elas tomam para serem assim tão controladas.

Furacão Elis foi o nome que a jornalista Regina Etcheverria deu à biografia de Elis Regina. A baixinha realmente ventava: era criativa, insaciável, uma capeta que brigava pelo que queria e não passava despercebida em local algum. Pagu, Leila Diniz, Clarice Lispector, Marilyn Monroe, Madonna, Janis Joplin, Frida Kahlo, Gisele Bündchen, Heloisa Helena, Luana Piovani – duvido que elas se ofendessem se batizassem um furacão com o nome delas. Furacão não é sinônimo de destruição, é uma força da natureza.

Então: homenagem ou provocação? Eu considero homenagem e das mais bem-humoradas. Há mulheres que nasceram para ter nome de flor e, outras, nomes que sugiram algo mais enérgico. Você preferiria que usassem seu nome pra batizar uma tempestade tropical ou um riachinho? Eu não demoraria nem um segundo pra escolher.

Pois é, mas as feministas acharam que era provocação e, em 1978, pressionaram tanto que conseguiram que os nomes dos furacões se alternassem. Além dos furacões Betsy, Agnes, Camille e Elena, entraram em cena também os furacões Juan, Nicholas, Larry. Tivemos que dividir nossa condição de tormenta. Tudo em nome da igualdade de condições. Cá entre nós, aquelas feministas eram muito mulherzinhas.


Domingo, 28 de setembro de 2003.



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